Linguagem Guilhotina


Estou pegado num projeto do BNB de fomento cultural.

Vendo os arquivos da oficina que ensina a preencher o projeto, fiquei surpreso com isso: alguns dados de um relatório de 2007 sobre os hábitos de consumo cultural do brasileiro.

Os dados foram levantados pelos Ministério da Cultura e pelo Itaú Cultural e se referem ao ano de 2007:

Quantos brasileiros frequentam cinema? 13%

Quantos brasileiros nunca foram a um museu? 92%

Quantos conhecem uma exposição de arte? 5,7%

Quantos viram um espetáculo de dança? 22%

Quais os livros mais importantes para o brasileiro em 2007? 1) Bíblia; 2) Sítio do pica-pau amarelo; 3)Chapeuzinho Vermelho; 4) Harry Potter; 5) O pequeno príncipe; 6) Os três porquinhos; 7) Dom Casmurro

69% dos brasileiros nunca leu um livro

77% dos brasileiros preferem usar o tempo livro para ver TV

90% dos municípios brasileiros não possui sala de cinema

 

 



Escrito por Cristhiano Aguiar às 11h01
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Saí agora da cozinha com uma caneca de café e vi a chuva rodopiando de um jeito pouco usual. Num primeiro lance de vista, parecia quase papel muito picotado, por causa das gotas pequenas e arredondadas e dos volteios de vento.

Ontem fiz algo que desde 2006 não fazia: não, não é o que você está pensando; apesar da minha nerdice, minha vida sentimental não é tão trágica. Me refiro à outra coisa: desde aquele ano eu não revelava uma foto. Para compensar, revelei logo um monte delas, umas vinte. É uma pena, contudo, que nenhuma ficará comigo, mas sim com alguns de vocês, pois elas serão enviadas junto àqueles textos que chamei de “Cartas de São Paulo”, uma mistura de ficção, crônica, carta, confessionário, ensaio e até bom-humor.

Tive uma noita mal-dormida graças a um clube que fica no quarteirão ao lado do meu, que me proporcionou horas e horas de suingueira, axé e bregão. Existem dois patrimônios da humanidade que são inconciliáveis: o meu justo sono e a MPP – Musica Pop do Povão. Quem merece, de quatro horas da manhã, ouvir um cantor se esgoelar achando que está sendo “expressivo”? Isto é para que eu pague os meus pecados pós-modernos de “valorizar a diferença” e as “expressões pop da música popular” (sim, porque Ivete Sangalo, Rapazola e Calypso são nossas legítimas músicas pops), julgando que todas as expressões musicais, mesmo aquelas bem comerciais e ligadas a uma indústria produtora de hits incessante (não importa se é a EMI ou as produções independentes do brega no nordeste, acho que há uma lógica semelhante aqui) são válidas.

Não existe tolerância se você está tentando dormir.

No mais, tentando sobreviver ao dia-a-dia e à morte de Michael Jackson. Os trabalhos estão bem adiantados e a dissertação um dia também será. A vida continua com seus pequenos momentos de sorte e azar, com as angústias esquecíveis e os desejos que duram poucos segundos. Arrumei um joguinho de computador para me distrair da Alta Cultura e não consegui rodá-lo no notebook. Levei foras de mocinhas. Fiz hora extra. Tive uma leve dor no ouvido direito durante dois dias.

Tudo continua tão irrelevante quanto sempre, o que não significa que tudo seja simples.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 16h05
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Escrito por Cristhiano Aguiar às 15h37
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Escrito por Cristhiano Aguiar às 19h42
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Hoje, na ponte do Pina, vi uma cena que você com certeza já viu em algum momento da sua vida: um cachorro com a cabeça para fora de um carro em movimento.

A boca meio aberta, o focinho e os olhos tranquilos, os pelos amarronzados agitados pelo vento. 

Será que foi a convivência com os homens que ensinou este cachorrinho a sentir um prazer sem finalidade, sem motivo, sem evolução? Se é evidente que foi a natureza quem inventou o prazer, fomos nós que o deixamos inútil.

Os domingos são, graças a Deus, cada vez mais um dia perdido para mim. Um amigo perguntou hoje se eu não achava os domingos meio deprimentes. Talvez, em anos passados, sim, mas na minha vida atual, eles se tornaram tão sem finalidade que eu finalmente fiz as pazes com estes dias de marcha lenta. 

O domingo não é mais o "dia anterior à terrível segunda"; " o dia do futebol"; "o dia em que vou com a namorada para o cinema"; "o dia do almoço com a família"; "o dia para eu colocar em dia minhas atividades profissionais"; "o dia do sorvete". Tudo isto que acabei de descrever é ótimo e cai muito bem no dia de hoje, claro. O domingo tem a exata extensão e objetivos de um bom verso: puro desperdício de tempo, puro prazer.

Quando uma existência se justifica somente porque está aí. No mundo.

Assisti, ontem, o Hamlet de Aderbal Freire-Filho, cujo elenco é capitaneado (perdoai o trocadilho) por Wagner Moura. Gostei da encenação, embora o elenco seja bem irregular, incluindo o próprio Moura, que parecia meio histérico em vários momentos. A linguagem da peça, encenada praticamente na íntegra, em quase quatro horas de duração, sofreu um processo de coloquialização que me pareceu adequado. E que peça terrível e difícil é Hamlet, não é? Difícil não apenas pela força do personagem principal, como por toda uma estrutura social que sustentava a peça e que nos falta hoje em dia. Os tempos mudaram, que bom que as encenações Hamlet mudem também. Por outro lado, há tantas complexidades humanas abordadas nesta obra-prima de Shakespeare e tanta sabedoria - frases geniais tropeçando umas nas outras - que eu me arriscaria a chamá-la de atemporal! Vale a pena, ainda, ler Hamlet. Como diz o próprio Horácio, no final da peça: "ouvireis então falar de atos brutais, incestuosos e contra a natureza, de julgamentos apressados, de mortes acidentais e de outras, necessárias, provocadas com astúcia. E para completar, de conspirações frustradas que acabaram virando-se contra quem as maquinava. Tudo isto eu posso fielmente contar".

Aqui embaixo, uma boa resenha da ótima revista Bacante sobre a peça:

http://www.bacante.com.br/revista/critica/hamlet-2




Escrito por Cristhiano Aguiar às 19h42
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Não sei o que leva alguém ao caminho da destruição. Ou melhor, o que leva alguém à autodestruição. Por que nos destruímos? Me intriga o desejo de corrosão, mesmo que haja escolhas. Heitor sabe que será destruído pelos gregos, mas continua lutando, "em prol do nome do meu pai e do meu". Paulo Honório se destrói, junto com todos à sua volta, porque só enxerga a propriedade, o lucro, a conquista de mais e mais milímetros do mundo. Bentinho, este déspota patético, anula a própria vida consumido pelo ciúme e pela inapetência de sua própria classe social. Eu compreendo todos estes, mesmo que saibam da própria morte.

Os suicidas, por outro lado, parece que a linguagem não consegue alcançá-los. Vejam esta notícia:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/06/26/ult1859u1148.jhtm

Esta moça, como eu, acha extremamente romântico suicidar-se da Torre Eiffel. A diferença entre nós dois é óbvia. Estou aqui, vivo, contando para vocês histórias. Ela escolheu que os outros escrevessem por ela: "A jovem de 18 anos, cuja identidade não foi divulgada, burlou a segurança, atravessou a barreira e saltou". Vocês não acham que este é um destino típico de personagens de ficção? Uma frase que, presente em um conto, um crítico, bem poderia ser eu mesmo, elogiaria como "concisa", "conceitual".

"Atravessou a barreira e saltou": em qual contexto eu gostaria de inserir estas palavras que, assim, sozinhas, rodopiando no céu sem nuvens, carecem de sentido, são apenas som com um mínimo de lógica?

Da mesma forma, foi embora Michael Jackson, outro perfeito personagem de ficção. A impressão que me dá, ele e outras das celebridades do mundo pop, é que elas são moídas, moídas e moídas até o último dólar por uma máquina esquisita feita de lucros, imagens e (nossos) desejos.

Nunca gostei muito do Rei do Pop: minha melhor lembrança dele é de um jogo de videogame engraçado, chamado Moonwalker, em que passos de dança se transformavam em golpes mortais contra os inimigos.

 

Agora, aquele que era o bufão do mundo pop (ou melhor, o tiozão bizarro do mundo pop), virou novamente um "rei": é a comoção ligada à intimidade que nosso tempo confere ao que é alheio, ao que é público, como se tudo fosse parte do nosso quintal, ou da nossa sala de jantar.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 14h34
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sem assunto!

indo de um lado a outro, mais rápido do que gostaria, mais lento do que deveria.

as informações se acumulam e se acumulam, overdoses de bits, palavras e imagens.

por outro lado, tive o privilégio de um feriado tranquilo em Campina Grande, lendo por querer e prazer. Não muito prazer, pois o livro de contos que li, de Ingo Schulze, não me empolgou muito. Mas sou assim: começou, tenho que terminar. Só se o livro for muito ruim, eu desisto.

Por ironia, ao pegar o avião para Recife, li um ótimo conto fantástico de Casares, durante o voo, sobre aviação, mundos paralelos e deuses bizarros. Está na beleza de edição da Cosac que compila alguns dos seus contos fantásticos.

=)



Escrito por Cristhiano Aguiar às 15h27
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coloquei o ponto final nas crônicas que andava escrevendo sobre São Paulo. o plano eram ser dez, só consegui fazer sete.

acho que ficaram bonitinhas. mas não se parecem muito com crônicas e mal falam de São Paulo! =P

alguns de vocês vão receber alguma das sete crônicas pelo correio, logo logo.

bom são joão a todos!




Escrito por Cristhiano Aguiar às 23h13
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Um dos escritores que entraram na moda, nos últimos anos, foi o chileno Roberto Bolaño. Cada caso de consagração na vida de um escritor é cheia de peculiaridades. No caso dele, Bolaño tornou-se um fenômeno cult, vendendo bem e sendo elogiado pela crítica americana e européia (que é quem, afinal, manda no mercado) poucos meses depois da sua morte. Hoje é, provavelmente, o mais lido dos escritores latino-americanos contemporâneos.

Li só um um conto seu, no livro "Putas assassinas", publicado pela cia das letras. Não dá para formar opinião ainda, mas pelo menos dá para reconhecer ali um Autor. Era sobre isto que eu pensava ontem, não lendo, mas ouvindo o bom e velho rock and roll: as bandas mais legais são realmente as que têm uma voz própria, que não copiam, por exemplo, Beatles pela milésima vez.

Achei uma entrevista boa com Bolaño na revista Sibila. Deixo aqui com vocês. Gostei muito desta resposta dele:

"toda obra literária deva ser enfocada assim: como um trabalho de artesanato, de humildade e de paciência, porém também uma aposta selvagem, o instante em que o escritor joga tudo ou nada. Esse é um dos males, por outro lado, da literatura contemporânea. São muito poucos os escritores que jogam tudo ou nada. Quase todos preferem se situar em um meio-termo, contentar uma enteléquia a que chamam de público leitor e assegurar seu salário. Que, ao final das contas, não é mais que um salariozinho miserável."

 

aqui está a íntegra:

 

http://www.sibila.com.br/2/index.php/critica/97-entrevista-com-roberto-bolano




Escrito por Cristhiano Aguiar às 12h03
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Escrito por Cristhiano Aguiar às 19h31
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gosto demais de ver o dia se acabando daqui da minha janela. solidão e felicidade não são um lugar no qual se está, mas uma, hum, poiesis: uma obra inconclusa, em perpétuo movimento, cuja origem e fim sequer conseguimos controlar, porque esta obra faz parte de uma história contada desde antes de nascermos. 

 

Mais um tanka de Yosano Akiko: "nós ignoramos/qual seria o caminho/futuro ou fama/aqui   amados   amando/apenas nós   olhamos"



Escrito por Cristhiano Aguiar às 17h03
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Bonita música =)



Escrito por Cristhiano Aguiar às 12h31
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ontem, Domingo, final da tarde. no banco de trás de um carro, tive uma impressão de plenitude. minha aposta é que não seja somente impressão, porém verdade. já tive muitos desejos. continuo com eles, claro, mas percebo que a maior aspiração consiste em conseguir viver consigo próprio. você se suporta? acho que nisso se encontra um tanto do dever que temos com a nossa própria humanidade. 



Escrito por Cristhiano Aguiar às 18h42
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Hoje começa a exposição "Castigo Divino & Mapas", de Fabinho Santana.

Vai ser lá na Escola de Arte João Pernambuco, na Avenida Barão de Muribeca, 116, Várzea.

A partir das 19 h, o artista conversa com o público sobre o próprio trabalho.

Fabinho é um artista criativo, cujo trabalho merece ser mais conhecido. Está correndo um pouco por fora da "cena" da cidade (se é que isto existe), mas construindo um trabalho consistente.


Aí vai o link da matéria sobre a expo no Diário:

http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/06/08/viver4_0.asp

 

Nos vemos lá! =)



Escrito por Cristhiano Aguiar às 09h55
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Uma ótima ideia. O Museu da Corrupção. Vejam o site:

 

http://www.dcomercio.com.br/especiais/2009/museu/home.htm

 




Escrito por Cristhiano Aguiar às 10h26
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