Alguns projetos legais estão acontecendo e me reanimo com um monte de coisas. Aqui a casa está amontoada de uns originais que recebi para avaliação + uma hecatombe de louças na pia da cozinha + jogos eletrônicos + anotações da novela na qual estou trabalhando.
Lembrando a todos que neste domingo, dia 28, na rua da moeda, vai ter o lançamento conjunto da Editora Moinhos de Vento e do site da Revista Crispim - Crítica e criação literária. Quando o site da revista estiver realmente no ar, é provável que eu não atualize mais este blogue, por absoluta falta de tempo. É que também estreará logo depois o site do Porto das Letras, na Gerência de Literatura e Editoração da Fundação de Cultura Cidade do Recife, instituição na qual atualmente trabalho. Depois falo mais desse projeto.
Hum... Tem também o Laboratório, um talk-show de crítica literária que acontecerá em um dos teatros do Recife. Sou um dos curadores e vou apresentar o primeiro programa. O tema será "Crítica - Para quê?"
Abaixo, os convites eletrônicos do que vai acontecer no domingo. Dêem uma passada por lá!
Aqui neste blogue tem uma série de depoimentos de manias dos escritores brasileiros contemporâneos na hora de escrever. Para quem se interessa por escritores contemporâneos e/ou manias, pode ser interessante:
Vi no twitter uma notícia legal: a Flibo, primeira Festa literária de Boqueirão (http://flibo2010.blogspot.com/2010/01/apresentacao.html). Os leitores que não são da Paraíba talvez não conheçam, mas Boqueirão é uma simpática cidade do interior paraibano.
A boa notícia é que não só a Paraíba tem acordado para realizar eventos literários, como eles não estão acontecendo apenas na capital do Estado. Isto me empolga. Lembro que durante anos, minha única possibilidade de ver peças de teatro e de dança, quando eu morava em Campina Grande, era através do Festival de Inverno da cidade. Então, são bastante louváveis iniciativas como essa da cidade de Boqueirão. Fico me perguntando quando Campina terá o seu próprio evento literário de peso...
Por fim, um convite: dia 28 de Março será o lançamento da editora de livros artesanais Moinhos de Vento. Um capítulo da minha novela inédita, Lugares incertos, foi escolhido para fazer parte da primeira leva de livros publicados pela editora. Na ocasião também vai rolar o lançamento do novo site da Crispim.
Não sei por que, mas estou obcecado com o tema da viagem. Este foi um dos motivos que me levou a lerO coração das trevas, de Conrad, cuja leitura terminou este fim de semana e muito me impressionou. Na fila, estão agora Mongólia, de Bernardo Carvalho, uma edição da Granta só sobre o tema e Moby Dick. Também hospedei, nos últimos dias, viajantes. Além de gostar de receber gente, no caso destas hospedagens, as novas presenças na minha casa serviram para observar diferentes nuances de quem viaja: a adesão, parcial ou total, aos discursos oficiais das cidades nas quais ficam, a abertura ao novo e a novas identidades, os deveres a serem cumpridos, a disponibilidade de se envolver, nas mais variadas gradações possíveis, afetivamente...
Como muitos outros, eu conheci o romance de Conrad por causa do filmeApocalipse now. No livro, acompanhamos a busca de Marlow por Kurtz, um homem sombrio, porém sedutor. Ambos trabalham para uma empresa europeia que explora marfim na África. Antes de mais nada, é inegável: o livro mais famoso de Conrad envelheceu. Marlow considera o negro inferior, selvagem, e sua cultura indígena, quase demoníaca, contudo não consegue deixar de salientar a dimensão humana do sofrimento que o colonialismo impôs (e ainda impõe).O coração das trevascontinua a ser boa literatura, apesar do conservadorismo. Marlow não consegue, também, fazer o elogio total à exploração capitalista.
Marlow quer saber a verdade sobre o mal. E este mal está no coração da floresta, dos negros, dos brancos, de todos os homens. A natureza é um lugar terrível para Marlow. Em parte, não deixa de ser verdade. Neste sentido,O coração das trevasé o Caim do filmeAvatar: ambos pecam no exagero da bondade ou degeneração do telúrico, contudo mantêm uma espessura, um excesso, que lhes confere um charme inegável. Claro, minha comparação para aqui: realmente não gostei muito de Avatar, já vi mundos de FC e fantasia bem mais interessantes e não é possível compará-los em termos de densidade poética. O filme de James Cameron, claro, não se propõe à “arte”, mas uma das coisas que me cansou nele é a reciclagem, sem moderações, do mito do bom selvagem e da bondade intrínseca à natureza.
No caso da viagem de Marlow, a natureza é uma voragem. Ela é indiferente. Complicada. Decaída (neste sentido, o filtro de Conrad é o cristianismo). Todos os mecanismos do romance se entrelaçam a fim de dar realce a uma única frase, dita por Kurtz antes de falecer: “O horror! O horror!”. Um certo exagero de estilo e representação de mundo, das dezenas de páginas anteriores, é justificado neste momento.
Percorrer perigos e aventuras em busca de outra pessoa, alguém que nos reserva, ao final, palavras fundamentais, é um dos motivos que alimentam, há séculos, as histórias que contamos uns para os outros. Engraçado, semana passada, ao ir até o shopping encontrar Mira – vocês percebam que as idas ao shopping andam metafísicas – parei num Mate. Pedi pão assado, café e o mate misturado a suco de cupuaçu.
Havia um homem na mesa ao lado, segurando nas mãos uma edição da Carta Capital. Do nada, ele puxou assunto. Eu devo estar mudando e amadurecendo, porque além de estar com vontade de ler biografias, gosto que eu reservava apenas aos adultos, sempre me incomodou terrivelmente quando desconhecidos puxam conversa comigo:
“A gente olha essas pessoas passando pelo shopping, por aí, e não sabem como o mundo é, o perigo que correm. Está tudo na internet. Os videos, as informações. Os EUA e o estado do Rio de Janeiro compraram caixões no qual cabem mais de três pessoas, grandes vagões e estão isolando áreas, a fim de construir campos de concentração. Eles sabem que vai acontecer uma catástrofe e não avisam a população. Os EUA jogam, com seus aviões, coisas nas nuvens, e ninguém sabe pra quê é.”
E continuou a falar sobre paranoias e conspirações diversas. “Está tudo lá” e me disse os sites. Pensei em argumentar se, afinal de contas, era algo tão secreto e misterioso, por que diabos estaria esta informação tão fácil na internet?! Ele diria coisas como “na internet ainda não se conseguiu pleno controle” ou “parece fácil, é isso que eles querem”.
Ele me informou que era funcionário da Caixa Econômica Federal. Houve um momento em que tive medo dele. Um momento específico no qual nossos olhos se cruzaram. Achei ter visto um outro. Um olhar bifurcado, algo além dele próprio.
Tranquilo, terminei meu mate, me despedi dele e fui embora.
Em casa, neste momento mesmo, me emociono pela milésima vez ouvindo a música que Caetano canta sobre o tempo. Lembro deste meu Kurtz, cujo encontro também tentou me revelar alguma dimensão da maldade dos homens. Estou sozinho no apartamento e começa a cair uma chuva. Minutos antes, após um longo suspiro – estou no meio da revisão da minha dissertação de mestrado, para poder entregá-la aos arguidores – eu caminhei pelos quartos e tomei consciência das ausências que meus visitantes deixaram soltas, os perfumes dissolvendo no ar.
Acho que não tenho nada mais a falar para vocês, exceto que entre um parágrafo e outro... Há toda uma voz de segredos e pequenos pecados; agonias, ansiedades, sonhos e expectativas.
Sobe o cheiro da chuva e do asfalto molhado do Recife. Escrito por Cristhiano Aguiar às 01h55
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Não sei vocês, mas às vezes me parece que a realidade se transfigura. Não dentro de um delírio, mas de um desvio; como se subitamente fossem trocadas as “lentes” pelas quais o mundo é percebido. É sutil, mas acontece e acho razoavelmente saudável.
Dia desses, tive um surto de “ficção científica”: peguei o suplemento Pernambuco deste mês e vi no cabeçalho – janeiro de 2010.
Uau! 2010! O futuro veio assim, de repente? No mesmo dia, fui pegar minha namorada no shopping, onde ela trabalha, e observei, surpreso, que os seguranças do lugar ganharam um novo brinquedo: eles ficam em pé em cima da máquina, que possui duas grandes rodas, apoiam as mãos numa haste e atravessam, engravatados, fones nos ouvidos, todo o shopping com rapidez, elegância e nenhuma zoada. A impressão de que eu estava em algum filme de ficção científica francês dos anos 60, com atores de rostos sisudos emulando a provável “frieza” e “alma de plástico” do futuro, ficou forte na cabeça. Fiquei até com medo de abrir a boca e começar a dizer monólogos esquisitos e sonolentos.
Na verdade, o desvio do mundo continua forte, mas numa modalidade perigosa, cujo flerte não recomendaria a nenhum de vocês. É quando ele se deforma, mas desviando em direção ao nada. É isso. Faz algumas semanas, uma escritora, que esteve presente no recital em homenagem a João Cabral de Melo Neto, que organizei no Mercado da Boa Vista pela Fundação de Cultura, me dizia que gostava de acompanhar o Linguagem Guilhotina: “gosto, é sincero.” Então, outro destes momentos de rasgada sinceridade consiste em admitir que não estou somente vivendo um futuro transformado no agora, como também uma espécie de deserção dos significados e da confiança na palavra. Parece que há uma bifurcação de caminhos, porém tudo se desvanece... De novo, os filmes: quando o herói põe as mãos na relíquia arqueológica tanto procurada durante todo o enredo, porém, ao ser tocada, ela se esfarela e parte... kaput: é assim a vida, uma fulguração e depois o nada, o esquecimento?
É um pouco sobre isso que falam os poemas do livro do meu amigo Fábio Andrade (http://primariastatuagens.blogspot.com/), A transparência do tempo. Já tinha deixado uma propaganda sobre o livro aqui, no ano passado, porque ele foi um dos quatro livros dos prêmios literários do Conselho Municipal de Política Cultural, que tive o prazer de editar. Nunca pensei que seria editor de A transparência do tempo, que tem um posfácio meu, escrito antes de eu começar a trabalhar na Fundação.
Amanhã, a partir das cinco da tarde, lá na Arte Plural Galeria (http://www.artepluralgaleria.com.br/), acontecerá uma sessão de autógrafos do livro.
Estarei lá, junto com Felipe Aguiar, falando um pouquinho sobre os poemas de Fábio. Aqui vão dois, retirados do livro:
Escrevo
Para quando estiveres morto
Porque aprendi
Que há palavras que se fiam
Quando somos finalmente
A sombra de nossa origem
Escrevo
Para quando
Restar o teu retrato
Na parede branca do tempo
- Eu
E o receio em beijar
Teu rosto irretocável.
*
Para além do dia
Que se estica em horas
E olhos que nos vigiam
Haverá um sentido
Guardado pela harmonia
Das coisas simples
E fugidias.
Aqui vai um trecho do posfácio:
“A morte e a ruína, bem mais presentes nas seções anteriores, se retiram da casa, embora ainda olhem para dentro, curiosas e com um tanto de sede. A vida é celebrada a partir da vivência do amor. No poema mais bonito desta seção, ‘Viriam os pássaros’, fitas de alegria e bandeiras sinalizam a coragem de criar, a partir da poesia, vida... Vida e um nome que se multiplica”.
Não deixa de ser uma janela e um foco trêmulo de luz.