Já faz um bom tempo que escutei esta música pela primeira vez. De quando em quando, lembro dos versos.
Quartos de hotel são iguais Dias são iguais Os aviões são iguais Meninas iguais Não há muito o que falar sobre o dia Não há do que reclamar Tudo caminha E as horas passam devagar Num ônibus de linha Passos no corredor, alguém se aproxima E uma voz estranha diz: "Bom Dia"
Posso pedir os jornais Pedir o jantar Ligar pra tantos ramais Ninguém pra falar Sobre o vermelho que abre este dia Tudo está no lugar em que não devia O mundo sai pra trabalhar Enquanto eu abro a água fira Um estranho no espelho Eu quase nem me conhecia E uma voz estranha diz: "Bom Dia!"
Esqueci de avisar que amanhã, dia 29 de Outubro, estarei na Gerência Operacional de Literatura e Editoração, às 17h, ministrando o curso Hoje - Ficção Contemporânea em Pernambuco.
Será uma conversa de aproximadamente 90 minutos, no qual serão abordados algumas temas das obras de: Ronaldo Correia de Brito, Fernando Monteiro, Marcelino Freire, Raimundo Carrero.
As inscrições são gratuitas e conferem certificado da Fundação de Cultura Cidade do Recife.
Endereço: Av Rio Branco, 76A.
Telefone de contato: 3232-2898
Aos que estiverem em Recife, espero encontrá-los lá!
O curso é parte da minha dissertação de mestrado e de um projeto de publicação que pretendo realizar no primeiro semestre de 2010.
Renunciar à dor de existir é desumanizar-se. Sentimos necessidade de justificar nossa existência, e uma série de experiências isoladas e sem profundidade simplesmente não é suficiente. Mesmo que possamos justificar todas as nossas ações individuais, o problema de justificar a totalidade delas - isto é, a vida que levamos - permanece. É nosso dever levar uma vida que nos atormente. Ao mesmo tempo, essa vida está sempre em algum outro lugar, para tomar emprestada uma expressão de Kundera. A obrigação de viver nos leva, inevitavelmente, de volta ao tédio. Um tipo de moral do tédio surge: devemos permanecer no tédio porque nele ressoa o eco da promessa de uma vida melhor.
(...)
Como alguém viver para que os problemas da vida desaparecessem? Não há nenhuma receite universal disponível. E é possível, afinal, ter uma vida que não seja problemática? O decisivo é encontrar uma perspectiva em que se possa viver com os problemas sem se tornar um 'miserabilista', alguém que vive para eles.
Ponderando as profecias não-cumpridas do passado e as gloriosas, embora mal-orientadas, esperanças do presente, Rorty conclama as pessoas a recuperarem a sensatez e despertarem para as causas profundas da miséria humana. "Deveríamos garantir", escreve ele, que nossos filhos "se preocupem com o fato de os países que saíram na frente em termos de industrialização possuírem uma riqueza cem vezes maior que a dos ainda não-industrializados. Nosso filhos precisam aprender, desde cedo, a ver as desigualdades entre seus próprios destinos e os de outras crianças, não como a Vontade de Deus nem como o preço necessário pela eficácia econômica, mas como uma tragédia evitável"
Hoje de manhã uma fotógrafa da revista Continente veio tirar uma foto, por causa de uma resenha minha sobre o livro de Sidney Rocha que eu fiz para a revista. Saí do trabalho - assoberbado por licitações, empenhos, pagamentos da Revista Eita!, e a minha dissertação, que estou terminando -, e a encontrei do lado de fora.
Simpática e paciente, ela me pediu para encostar na parede verde do sobrado no qual trabalho.
Daí, ficamos em silêncio. Observei a câmera e os cliques; fiquei surpreso ao constatar que existe uma intimidade surpreendente entre um fotógrafo e seu objeto; como se dois rostos estivessem próximos, quase se respirando. A fotógrafa clicava minha imagem e eu sentia uma estranha sensação enquanto observava a movimentação na lente da máquina, acompanhada do barulhinho característico. Minha timidez aflorou, não me senti seguro - servido na mesa do jantar. Em seguida, ela me mostrou as fotos. Da mesma forma que evito me olhar em espelhos - acho que Borges dizia que também não gostava - eu nunca olho fotos minhas tiradas em máquinas. Não adianta: quando querem me mostrar, faço de conta que olho e deixo a imagem de lado. Isto não significa que estou vacinado do narcisismo do nosso século, muito pelo contrário, é ele quem me lança fora da minha própria repetição.
Dias antes, fui no shopping pagar uma conta, dentro de uma loja de departamento. Quando chegou minha vez, a moça que me atendeu pediu o papel no qual estavam as parcelas da compra. Entreguei. Daí, ela, assim como a sua colega de trabalho, no computador vizinho, começaram a digitar freneticamente. O som ao teclado não era muito diferente deste que meus dedos produzem agora, a fim de escrever este post, contudo os seus sentidos... Durante poucos segundos, só havia som naquele ambiente branco de oportunidades emolduradas na parede, ar condicionado, luz e neutralidade; nada mais possuía qualquer significação. Ao passo que aqui, neste blog, a ideia de uma parede nem tem lógica; as palavras, errantes, estão sujas e tudo é incerto, oblíquo.
O som e os dedos no teclado delas existiam para fazer som, numa ciranda de números que só existem para serem eles mesmos. Pelo que elas trabalham? Meu dia-a-dia, por outro lado, com sons tão semelhantes, tenta suspender as cortinas do mundo. Sem demagogia, não tenho certeza se o que faço atualmente - o que faço, ou melhor, o que me é necessário? - é mais importante do que o que elas fazem. Se quiser ler um livro, talvez você me procure; mas não sou eu que estarei atrás de um terminal para te ajudar a ter roupas e sapatos novos, portanto, a César o que é de César.
é isso, entre imagem e som, fico aqui às três da manhã em busca de um pouco de sono.
imagem, som? A memória me trai e me lança fragmentos recentes de ambos; a memória joga luz forte e desmancha os sonos...
li ontem versos de ovídio sobre a alegria do vinho e da amizade.
o comentador dos versos elogia a sabedoria do poeta romano e nada posso fazer a não ser endossá-la.
nesta aridez que a crítica e a teoria nos jogam, de vez em quando, completada pelas asperezas da política literária e dos seus diversos empreendedorismos - diante dos quais o escritor e o poeta precisam de muita cautela, pois podem vestir sem perceber o manto da amargura e do ressentimento - eu bem queria agora alguns cálices, um bom vinho e os amigos e parentes queridos.
para completar, um pouco de safadeza tirada da antologia erótica traduzida por José Paulo Paes,republicada faz um tempo no formato de bolso pela cia das letras. é da lírica grega antiga e o poema é atribuído a um poeta grego chamado Galo:
passei por um momento de paranoia existencial, dia desses.
deitado na cama, qualquer possibilidade de sentido foi como que sugada à vácuo, diante dos meus olhos. tive um vislumbre da mudez e indiferenças intrínsecas ao estar-aí.
o que fiz? depois de colocar uma música nervosa, decidi abraçar o nada e perceber que nossa tragédia é forçar a vida a ter uma alma e uma vontade favorável; é bom lembrar que viver é trabalho e que ser humano é um contínuo esforço.
esta consciência pode nos salvar quando a verdade do real se descortina, na sua nudez e crueza, diante do palco no qual atuamos.
Já falei dela aqui, mas falo de novo. Sou um dos convidados da Freeporto: festa literária do Recife. Por que ela é importante? Por ser uma iniciativa completamente independente, sem que o primeiro passo fosse dado por uma instituição ou um destes Medalhões literários.
Da mesma maneira que foi com o surgimento da Crispim (embora os focos das ações sejam diferentes), temos um grupo de escritores tentando criar um espaço que conjuga generosidade - no sentido de abrir janelas para novas vozes - com negatividade, no sentido de dizer um "não" como resposta a certas caretices ainda associadas à vida literária. Quem produz a Freeporto é o pessoal do coletivo Urros Masculinos, nome que não gosto muito, mas cujos resultados das ações culturais vêm se revelando bem interessantes.
A Freeporto vai acontecer entre os dias 06 e 08 de Novembro, na Rua da Moeda. A programação vai focar performances, recitais e doideras. Praticamente não vai haver mesas de debates. Uma das poucas será comigo e um escritor da nova ficção brasileira que vem obtendo destaque nos últimos anos.
Entre outros, estão convidados para a Freeporto Marcelino Freire, Santiago Nazarian, Ivana Arruda Leite, Claudio Willer, Adélia Coelho, Helder Herik, Pedro Américo de Farias.
Aqui vai o link: http://freeporto.wordpress.com/
E o curso que apresentei na Bienal do Livro de Pernambuco, Hoje - Ficção contemporânea em Pernambuco, vai rendendo frutos. Dia 24 de Outubro, vou apresentá-lo num evento acadêmico em Monteiro, na UEPB. Não sei bem o horário ainda. E no dia 30, aos que estiverem em Recife, o curso vai rolar na Gerência de Literatura e Editoração, a partir das 17h (em ponto!).
A proposta é mostrar algumas características da ficção de Marcelino Freire, Raimundo Carrero, Fernando Monteiro e Ronaldo Correia de Brito, articulando-as com os impasses do tempo presente. Os livros abordados vão ser: Rasif, de Marcelino; Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito; As confissões de Lúcio, de Fernando Monteiro; Sombra Severa, de Raimundo Carrero.
"Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e compreender o seu tempo"
Bulindo nos poemas de Alberto da Cunha Melo, pelo mesmo motivo do post sobre Carlos Pena. Alberto foi, provavelmente, um dos poucos poetas de Pernambuco, nos últimos trinta anos, realmente relevantes. Aliás, não só de Pernambuco, como do Brasil. Gosto da poesia dele. Lá vão dois poemas:
Oração pelo poema
II
Senhor, dá-me a palavra brisa, irmã das fontes, dá-me agora, qualquer palavra que suavize a minha vida, para sempre.
Dá-me uma canção que me salve no tempo em que as canções morreram, para tocá-la no piano velho, cada noite mais alto.
Cobre várias vezes com a gaze de tuas nuvens o vocábulo ferido (como eu) na cidade dos cegos, pisado por eles.
Levanta as brancas persianas sobre a manhã – que só começa quando ouvimos pronunciar o nosso nome, uma palavra.
Dá-me novamente a esperança de transmitir todas as coisas novas, que a noite me disse ou que teus anjos me disseram.
O penitente
Sempre rezava, antes do sono, uma a uma, as longas preces decoradas, desde menino sem horizontes do Nordeste;
só para si, sempre em surdina, cantava antigas ladainhas
pelos próximos, os distantes, ex-amigos, ex-inimigos; cantou até aquele instante
em que o céu surdo o convenceu a dizer, apenas, “meu Deus”.
Mês de outubro se inicia e este blog para de novo. É um momento crítico: Bienal do Livro, na qual estarei trabalhando e entrega de dissertação, que anda devagar, mas caminhando.
Passei a noite agora pensando em índios. Uma das coisas que preciso fazer, até segunda, é uma resenha sobre índios na ficção brasileira hoje. Sim, de repente, descubro, provocado pelo meu editor, que uma série de romances e contos se aproximam da cultura indígena: este ano tivemos o interessante e polêmico Meu destino é ser onça, de um dos meus autores preferidos, Alberto Mussa, além do chato romance de Ana Miranda, Yuxin. Autores como Milton Hatoum e Bernardo Carvalho também poderiam ser citados, assim como Roberto de Sousa Causo, que utilizou os mitos indígenas na tentativa de escrever um Senhor dos Anéis tupiniquim. Se o texto ficar legal, depois coloco aqui para vocês verem; fica a vontade de conhecer mais sobre estas culturas e seus mitos, principalmente. Quem sabe, 2010! Queria postar um trecho do mito tupinambá que Mussa "restaurou", porém confesso a vocês que estou fisicamente e mentalmente cansado, neste exato momento (todos nós temos direito a lamentações estilo 'querido diário', esta é a minha, perdoai). Depois coloco, tá bom?
Tem também a entrega de uma resenha de um autor pernambucano que desponta: Sidney Rocha, que acabou de lançar um livro de contos pela Iluminuras. O que achei? Até segunda-feira descubro.
Vou estar na Bienal do livro todos os dias, mas em três estarei compondo mesas. Dia 05, uma mesa sobre uma antologia que tenta revelar cinco novos poetas e cinco novos contistas do Recife. Vou estar na antologia com um conto do meu livro inédito, Tuas famílias. Dia 09, faço uma conferência sobre ficção contemporânea em Pernambuco, dentro da programação dos "Cursos Crispim". E dia 10, uma conversa com o já citado Mussa, que fará uma palestra sobre "O escritor como leitor". Apareçam por lá!
Pra quem sintoniza a TV universitária, amanhã (01 de outubro) é a reestreia do Opinião Pernambuco e vou debater feiras literárias com o curador da Bienal de Pernambuco, Homero Fonseca, e o professor do PGLetras Anco Márcio. A partir das 19h.
Nos encontramos aqui no blogue no final do mês! =)