Linguagem Guilhotina


 

 



Escrito por Cristhiano Aguiar às 17h30
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Não sei vocês, mas às vezes me parece que a realidade se transfigura. Não dentro de um delírio, mas de um desvio; como se subitamente fossem trocadas as “lentes” pelas quais o mundo é percebido. É sutil, mas acontece e acho razoavelmente saudável.

 

Dia desses, tive um surto de “ficção científica”: peguei o suplemento Pernambuco deste mês e vi no cabeçalho – janeiro de 2010.

 

Uau! 2010! O futuro veio assim, de repente? No mesmo dia, fui pegar minha namorada no shopping, onde ela trabalha, e observei, surpreso, que os seguranças do lugar ganharam um novo brinquedo: eles ficam em pé em cima da máquina, que possui duas grandes rodas, apoiam as mãos numa haste e atravessam, engravatados, fones nos ouvidos, todo o shopping com rapidez, elegância e nenhuma zoada. A impressão de que eu estava em algum filme de ficção científica francês dos anos 60, com atores de rostos sisudos emulando a provável “frieza” e “alma de plástico” do futuro, ficou forte na cabeça. Fiquei até com medo de abrir a boca e começar a dizer monólogos esquisitos e sonolentos.

 

Na verdade, o desvio do mundo continua forte, mas numa modalidade perigosa, cujo flerte não recomendaria a nenhum de vocês. É quando ele se deforma, mas desviando em direção ao nada. É isso. Faz algumas semanas, uma escritora, que esteve presente no recital em homenagem a João Cabral de Melo Neto, que organizei no Mercado da Boa Vista pela Fundação de Cultura, me dizia que gostava de acompanhar o Linguagem Guilhotina: “gosto, é sincero.” Então, outro destes momentos de rasgada sinceridade consiste em admitir que não estou somente vivendo um futuro transformado no agora, como também uma espécie de deserção dos significados e da confiança na palavra. Parece que há uma bifurcação de caminhos, porém tudo se desvanece... De novo, os filmes: quando o herói põe as mãos na relíquia arqueológica tanto procurada durante todo o enredo, porém, ao ser tocada, ela se esfarela e parte... kaput: é assim a vida, uma fulguração e depois o nada, o esquecimento?

 

É um pouco sobre isso que falam os poemas do livro do meu amigo Fábio Andrade (http://primariastatuagens.blogspot.com/), A transparência do tempo. Já tinha deixado uma propaganda sobre o livro aqui, no ano passado, porque ele foi um dos quatro livros dos prêmios literários do Conselho Municipal de Política Cultural, que tive o prazer de editar. Nunca pensei que seria editor de A transparência do tempo, que tem um posfácio meu, escrito antes de eu começar a trabalhar na Fundação.

 

Amanhã, a partir das cinco da tarde, lá na Arte Plural Galeria (http://www.artepluralgaleria.com.br/), acontecerá uma sessão de autógrafos do livro.

 

Estarei lá, junto com Felipe Aguiar, falando um pouquinho sobre os poemas de Fábio. Aqui vão dois, retirados do livro:

 

Escrevo

Para quando estiveres morto

Porque aprendi

Que há palavras que se fiam

Quando somos finalmente

A sombra de nossa origem

 

Escrevo

Para quando

Restar o teu retrato

Na parede branca do tempo

- Eu

E o receio em beijar

Teu rosto irretocável.

 

*

 

Para além do dia

Que se estica em horas

E olhos que nos vigiam

Haverá um sentido

Guardado pela harmonia

Das coisas simples

E fugidias.

 

Aqui vai um trecho do posfácio:

 

“A morte e a ruína, bem mais presentes nas seções anteriores, se retiram da casa, embora ainda olhem para dentro, curiosas e com um tanto de sede. A vida é celebrada a partir da vivência do amor. No poema mais bonito desta seção, ‘Viriam os pássaros’, fitas de alegria e bandeiras sinalizam a coragem de criar, a partir da poesia, vida... Vida e um nome que se multiplica”.


Não deixa de ser uma janela e um foco trêmulo de luz.

 



Escrito por Cristhiano Aguiar às 22h11
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os 50 livros mais vendidos de 2009

Achei esta lista enquanto fazia uma pesquisa para uma entrevista. Ela está neste blogue: http://estelivro.wordpress.com/

Aí vai:

1. A cabana - William Young (Sextante)

2. Eclipse - Stephenie Meyer (Intrínseca)

3. Amanhecer - Stephenie Meyer (Intrínseca)

4. Lua nova - Stephenie Meyer (Intrínseca)

5. Crepúsculo - Stephenie Meyer (Intrínseca)

6. O símbolo perdido - Dan Brown (Sextante)

7. Vade Mecum Saraiva 2009 (Saraiva)

8. O vendedor de sonhos - Augusto Cury (Academia de Inteligência)

9. Mentes perigosas - Ana Beatriz Silva (Objetiva)

10. O caçador de pipas - Khaled Hosseini (Nova Fronteira)

11. Comer, rezar, amar - Elizabeth Gilbert (Objetiva)

12. Leite derramado - Chico Buarque (Cia. das Letras)

13. A cidade do sol - Khaled Hosseini (Nova Fronteira)

14. O menino do pijama listrado - John Boyne (Cia. das Letras)

15. A menina que roubava livros - Markus Zusak (Intrínseca)

16. Vencendo o passado - Zibia Gasparetto (Vida e Consciência)

17. Mini Aurélio - Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (Positivo)

18. Quem me roubou de mim? - Fábio de Melo (Canção Nova)

19. Anjos e demônios - Dan Brown (Sextante)

20. Direito constitucional esquematizado - Pedro Lenza (Saraiva)

21. O monge e o executivo – James Hunter (Sextante)

22. O vendedor de sonhos e a revolução dos anônimos – Augusto Cury (Academia de Inteligência)

23. Uma breve história do mundo – Geoffrey Blainey (Fundamento)

24. O despertar – Diários do vampiro – vol. 1 – L. J. Smith (Record)

25. O código da inteligência – Augusto Cury (Thomas Nelson)

26. Os homens que não amavam as mulheres - Stieg Larsson  (Cia. das Letras)

27. Marley e eu – John Grogan (Ediouro)

28. A arte da guerra – Sun Tzu (Jardim dos Livros)

29. Cartas entre amigos – Gabriel Chalita (Ediouro)

30. A hospedeira – Stephenie Meyer (Intrínseca)

31. O pequeno príncepe – Antoine Saint-Exupéry (Agir)

32. 1808 – Laurentino Gomes (Planeta)

33. Se abrindo pra vida – Zibia Gasparetto (Vida e Consciência)

34. Minidicionário Houaiss – Antonio Houaiss (Objetiva)

35. Minutos de sabedoria – Carlos Torres Pastorino (Vozes)

36. Nunca desista de seus sonhos – Augusto Cury (Sextante)

37. Querido diário otário 1 – Jim Benton (Fundamento)

38. Box da série Crepúsculo – Stephenie Meyer (Intrínseca)

39. O ladrão de raios – Rick Riordan (Intrínseca)

40. Proibido para maiores – as melhores piadas para crianças – Paulo Tadeu (Matrix)

41. Uma breve história do século XX – Geoffrey Blainey (Fundamento)

42. A sombra do vento – Carlos Ruiz Zafón (Objetiva)

43. Por que os homens amam as mulheres poderosas – Sherry Argov (Sextante)

44. Dicionário escolar Michaelis (Melhoramentos)

45. A menina que brincava com fogo – Stieg Larsson (Cia. das Letras)

46. Marcada – série House of night – P. C. Cast (Novo Século)

47. A cabeça de Steve Jobs – Leander Kahney (Agir)

48. Formaturas infernais – Meg Cabot e outros (Record)

49. Os segredos da mente milionária – T. Harv Eker (Sextante)

50. Casais inteligentes enriquecem juntos – Gustavo Cerbasi (Gente)

Fonte: Livrarias Saraiva e Siciliano, Saraiva.com e Siciliano.com



Escrito por Cristhiano Aguiar às 15h27
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-Não diga isso alto, Cris!

 

Me recomendou uma amiga, brincando, quando mostrei a ela um livro sobre Beatriz Milhazes e afirmei: “gosto muito destas estruturas femininas, delicadas”.

 

Vocês gostam de Beatriz Milhazes (http://www.fortesvilaca.com.br/artista/beatriz-milhazes/foto-9.html)? Quem não conhece, dê uma olhada:

 

 

           Mares do sul, 2001, acrílica sobre tela, 178.5 x 197 cm


Talvez eu esteja sempre à procura de uma bordadura feminina na minha escrita...

 

A torneira do registro da minha casa quebrou, na semana passada. Nada sério: somente um filete de vazamento (nota: por algum ato falho, eu escrevi, na primeira versão deste post, a palavra “cabeça” no lugar de “casa”! E não deixa de ser verdade).

 

Esta torneira, parecida com um trevo de quatro folhas, se localiza dentro de um armário de fórmica branca, onde guardo minha louça. Descobri o vazamento porque escorriam umas gotas lentas, grossas, das pontas do armário, das pontas brancas do armário, nas quais estão instalados pequenos braços de metal: são eles que permitem o abrir e o fechar das suas três portas.

 

Retirei parte dos pratos e copos. Uma mancha meio escura de água, esparramada, um pouco nua. Imaginei que, sem cuidados imediatos, o armário incharia e a umidade ficaria verde. Tudo se expandindo, se destruindo, inchando.

 

Chamei o encanador. Ele consertou parcialmente a torneira, pois do vazamento restou ainda um pequeno filete, quase transparente. Ficamos observando, bem de perto, para saber se o filete era o resquício da última água que fugira e vazara; se percebêssemos, pelo contrário, uma pulsação, algum tipo de movimento por dentro do filete, ainda havia o que consertar. Ele colocou o dedão da mão direita no meio do fiozinho, tentava sentir se o vazamento continuava. Aparentemente, não.

 

Continuamos observando. O filete sinuoso, silencios. Cheio de véus.

 

- Não está mais vazando. – O encanador concluiu.

 

Era verdade.

 

Ele foi embora.

 

Mas eu, eu decidi olhar mais um pouco.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 19h45
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O FIM DO MUNDO

 

No fim de um mundo melancólico

os homens lêem jornais.

Homens indiferentes a comer laranjas

que ardem como o sol.

 

Me deram uma maçã para lembrar

a morte. Sei que cidades telegrafam

pedindo querosene. O véu que olhei voar

caiu no deserto.

 

O poema final ninguém escreverá

desse mundo particular de doze horas.

Em vez de juízo final a mim me preocupa

o sonho final.

 

João Cabral de Melo Neto



Escrito por Cristhiano Aguiar às 20h09
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O Recife antigo está impregnado de Janeiro. Um dos primeiros sinais é o fato de que é possível estacionar o seu veículo após as nove horas da manhã. As ruas da praça do Arsenal e do Bom Jesus, aliás, lugares nos quais eu estaciono meu atrasado carro, estão com mais grupos de turistas do que o habitual.


Hoje, dois dos mendigos que vivem pela praça estavam deitados, falando sozinhos, com o corpo se mexendo. Submersos. Tentei imaginar que tipo de mundo eles habitavam. E se, afinal de contas, era melhor estar , do que aqui. Sobre o que conversavam?


Só se fala em carnaval. Amanhã teremos uma festa lá no Eufrásio Barbosa, em Olinda, com duas das bandas pós-mangue com mais cara de carnaval daqui: Eddie e Orquestra Contemporânea de Olinda. Como nunca fui muito acostumado com carnaval, nem passava os carnavais em Recife, ainda me surpreendo com o empenho do pernambucano em organizar suas troças, comentar as fantasias que serão usadas, programar os dias das cachaças e os pontos de encontro em Olinda...


Amanhã estão todos convidados para um recital, no mercado da Boa Vista, em homenagem ao aniversário de João Cabral de Melo Neto, que completaria neste sábado 90 anos. A Fundação de Cultura organizou, além deste recital, que será feito apenas por mulheres, um curso gratuito de introdução à poesia do poeta pernambucano. Este curso será ministrado pelos meus chapas da Crispim, Artur Ataíde e Fábio Andrade, na Livraria Cultura, nos dias 11 e 12 de Janeiro, a partir das 19h. Apareçam!

 

E na quarta, dia 13, vai rolar, também na Cultura, o Saldão Literário: recital com um monte de poetas e escritores do Recife e adjacências, fazendo um balanço do que foi produzido de literatura no ano de 2009. Aí está o cartaz:

 

 

Nos encontramos por estas estripulias e, se minha dissertação deixar, pelo Janeiro de Grandes Espetáculos.

 



Escrito por Cristhiano Aguiar às 16h32
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Engraçado. O ano de 2010 comprova a plena sintonia que estou tendo com a rotina dos dias. Explico: perceber que, após o fim de 2009, a vida continua mais ou menos na mesma, inclusive com direito à... segundas-feiras.

 

- É isso... Lá vamos nós de novo. – Dizemos diante do espelho. Se eu usasse gravatas, diria: “dizemos diante do espelho, enquanto ajeitamos a gravata e passamos loção pós-barba”.

 

No dia 1 de janeiro, acordei com um bom humor extravagante. Talvez tenha sido o céu azul de Recife, que continuou em João Pessoa... Parecia que eu tinha plena capacidade de resolver, com uma razoável facilidade, os primeiros desafios que despontam no ano que se inicia. Tive a sensação de “apesar disso, estou no controle”. Me senti pleno. À vontade com minhas perguntas de estimação.

 

Hoje, por outro lado, a sensação de segurança foi substituída, à medida que a noite caía, por uma ansiedade velada, que me fazia balançar os pés e tamborilar os dedos da mão esquerda. Tive, então, a vontade de fazer um post cinzento, ao som de, sei lá, digamos, Joy Division, post enfeitado por dois poemas de Contador Borges e Jorge Reis-Sá. Cheguei em casa, desisti do que ia escrever, contudo os poemas ficaram.

 

*

 

Ardor maior é coisa

que não cabe num poema

 

luzes sim

mas luzes frias

 

sem contar as cinzas.

 

(Contador Borges)

 

Fala do Bom Pastor

 

É-me fácil pastorear Deus pelas encostas.

Chamo-o forte e ele junta as ovelhas, late.

 

Pastoreio a felicidade. E peço que Deus afaste

os lobos da carne onde guardo o meu sustento.

 

(Jorge Reis-Sá)

 

*

 

Às vezes, penso que pastoreio lobos.

 

Mãos à obra, hein?

 



Escrito por Cristhiano Aguiar às 20h40
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