Linguagem Guilhotina


Tem um trecho que nos soa engraçado na Ilíada, quando Zeus manda um sonho para atormentar o inseguro Agamênon - Haroldo de Campos traduz, de maneira um tanto extravagante, assim: "Decide o coração (e lhe parece bem): / enviar - ruinoso - o sonho ao atreide Agamênon. / "Ôneiros" - chamou (e asas-frases tatalaram): / "alcança, oniro-fúnebre, os navios aqueus".

Então: acordei agora de um micro-sono, meio esquisitado por um sonho. já faz um bom tempo, estou com horários de dormir estranhos, que me dão, em algumas horas, uma sensação de irrealidade - às vezes, isto é até saudável.

Tinha esquecido de falar para vocês de duas matérias que saíram por aqui este mês, uma na Continente, outra no Pernambuco. Vou colocá-las aqui no blogue, mas parece que uma delas dá para acessar online: http://www.continenteonline.com.br/

Daqui a pouco vou para SP, acompanhar a Balada Literária (http://baladaliteraria.zip.net/)

Por isso, fico devendo os outros posts sobre a Freeporto. Devo postar algo da Balada lá no twitter.

Na mala, levo:

a) sono;

b) 30 revistas Eita!;

c) apenas três livros, todos não obrigatórios: dois com entrevistas feitas com Borges e uma tradução de poemas pré-islâmicos feita por Mussa;

d) máquina fotográfica;

e) minhas últimas economias;

f) um mapa;

g) um caderninho;

h) números de telefones de lá;

i) um amor em latência.

Quem estiver por SP - parece que só o que tem é pernambucano e paraibano lá - manda notícias.

Segunda volto.




Escrito por Cristhiano Aguiar às 17h21
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Diarios da Freeporto - Primeiro Dia

Marcelino na sacada da Freeporto

A galera lá-e-cá

A Pedra Fundamental!

(estas fotos são todas de Ivana Arruda Leite - visitem o blogue dela -> http://doidivana.wordpress.com/)

 

Para quem estava enfurnado em casa como eu, foi ótimo reencontrar a Rua da Moeda – lá estavam a estátua sequestrada de Chico Science, as bolas extravagantes de concreto que impedem arrastões, o performer Dimitri Gargamel com seus cartazes e caleidoscópios, os pombos sonolentos e, novidade, as bandeirinhas da Freeporto!

Espuma nos copos e cigarrinhos acessos nos dedos: fui ziguezagueando entre as pessoas para chegar na sede da ONG Corpos Percurssivos, que se localiza no primeiro andar de um dos sobrados da rua. Ali começava a Freeporto. Uns três gêneros musicais se misturavam na rua, cheios de malemolência: samba, rock and roll e reggae. Em frente ao prédio da Freeporto, o toldo transparente com os tapetes, caixas de som e microfones que a pouca grana da festa conseguiu. Mas se houvesse um palco, teria sido muito menos legal. Logo mais, se apresentaria uma das bandas novas mais bacanas de Recife: o glam-cafuçu Johnny Hooker and Candeias Rock City.

Subi as escadas e a sede da ONG estava bonita, com uma bela pintura de Pedro Buarque e dois sofás convidativos. A iluminação e as cores me lembraram a bandeira da Itália e gostei desse ar Marlon Brando. Tudo conspirava para todos se sentirem à vontade. Engraçado: havia um clima de “chegou a hora da gente” ou “chegou a hora de sermos o que somos”. E o que somos? Esta foi uma pergunta que me fiz em outros momentos. A mesa era composta pelos produtores, pelo jornalista Cristiano Ramos, pela poeta Cida Pedrosa e por Marcelino Freire, e se chamava “Receita de Bolo de Rolo”. Cada um expôs suas ressalvas com a caretice das festas literárias, principalmente com a Fliporto, e as colocações eram alternadas com bolo de rolo, cerveja e declamações. Às vezes, eu acho que rola uns clichês nestes momentos, quando abundam versos sobre buceta e caralhos, ou umas incorporações de personagens “eu não estou nem aí”, “morte ao sistema” e etc. No entanto, o humor e a doidera foram muito bem dosados, com direito a espaços para críticas à própria Freeporto, como foi o caso das colocações de Cristiano e Santiago, o que é ótimo.

O melhor momento aconteceu quando Jomard Muniz de Brito chegou e jogou na plateia um monte de apitos; as pessoas pegavam eles e a zoada foi ótima; acho que a produção da festa ficou um tanto estressada nestes momentos – a grande contradição da anarquia é que ela necessita de algum grau de ordem para pipocar com tudo.

Terminada a mesa, voltamos à rua da Moeda e foi inaugurada a Pedra Fundamental da Literatura Pernambucana: dois compridos blocos de gelo, que parodiavam as horrorosas duas torres que a Moura Dubeaux está finalizando no Recife antigo. O gelo ficou em riste em cima de uma coluna grega vagabunda. Muita gente deve ter achado aquilo bobo, mas para mim, que convivo de perto, profissionalmente, aliás, com as afetações de tantos poetas, escritores e intelectuais, bem como com a memória mumificada das academias de letras e agremiações de escritores, que se alimentam do elogio, dos certificados e de inaugurações de estátuas e monumentos; bem foi tudo maldosamente divertido. Você pode se perguntar se, afinal de contas, fazer uma paródia destas (bem como todo o meu discurso neste parágrafo) também não teria um tanto de afetação: o leitor descobrirá que a Freeporto foi cheia de imagens ambiguas.

Em seguida, encontrei com uns amigos e ficamos tomando cervejas enquanto as declamações e o rock and roll rolavam. As meninas, cheias de mimos e com bonitos cabelos, passavam diante da gente. Colocávamos nossos trinta e poucos anos na mesa: o saldo pareceu razoável, contudo havia a certeza de que as mocinhas sempre estarão melhores. É incrível como numa mesa de bar está a matriz do que fazemos na literatura. Sentar-se, ouvir e falar, pondo experiências em movimento. O mérito não é do bar em si, porém das circunstâncias e dos dramas que cada um vive – cada vida é jogada à sorte do olhar do outro, do risco do outro.

Por onde vou caminhando, esbarro com humanidade em demasia e isto me agrada.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 00h57
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Diários da Freeporto - Pré-Freeporto

 

 

 

 

“Tenho um negócio para te dizer”, falou, meses atrás, Wellington, “mas não pode ficar espalhando”. Quando fui em sua casa para descobrir do que se tratava, me olhou um pouco desconfiado – ele é assim, lembra um outro amigo poeta –, mas sem conseguir esconder um risinho: “a gente vai fazer uma festa literária. Vai se chamar Freeporto. Bora?”. Na hora, comecei a rir.

Acompanhei a Freeporto em seus dois extremos: no início e na sua realização. Acompanhei bem de perto as discussões sobre a programação, assim como os primeiros esboços de produção, mas depois, infelizmente, não deu mais para estar nela. No entanto, quase toda semana, Wellington e eu trocávamos ideias sobre a festa, e acabamos amigos. De vez em quando, recebia uma ligação do tipo: “vamos fazer uma coisa que tu vai odiar: uma freecareta!!” ou “sei que tu vai reclamar, mas vamos lançar a antologia de novos escritores... Num puteiro!” – e por aí vai.

De lá para cá, a Freeporto suscitou todo tipo de reações e controvérsias. É literatura? É oba-oba? É o retorno do mito da “marginalidade”? Embora a adesão à ideia dos meninos do Urros Masculinos (é um nome bizarro, eu sei) tenha sido grande, também ouvi aqui e ali reações de rejeição. Se o tempo da literatura, esta palavra difícil e ciumenta, com certeza não é sinônimo de “articulação literária”, nem de “festa”, isto não significa que não se possa cair na gandaia. Assim como se trancar numa biblioteca não garante boa literatura, tomar uma cerva com poetas nas esquinas da Rua da Moeda tampouco garante que um escritor seja contemporâneo do seu próprio tempo!

É preciso cuidado com a militância literária e a articulação cultural, porque ela pode nos endurecer. Soa estranho? Como tudo, trata-se de política! “Este é o meu lugar à sombra, você está aqui e os outros, lá, do outro lado da linha”; tenho me incomodado com poetas e prosadores, principalmente os que botam a “mão na massa”, que já têm certeza demais do seu lugar no mundo e de como deveriam ser as coisas. Nossos desejos de fazer-acontecer, aliás, nos levam a uma verdade simples: não há necessariamente demanda para os eventos que criamos ou os livros que publicamos. O espaço tem que ser criado, com muito esforço, e cada leitor precisa ser conquistado pelo nome. A gente começa o jogo com muitos pontos contra.

Onde está a literatura, então?

Qual é o seu tempo?

Para que fazer uma festa? A literatura precisa de festa?

Com estas perguntas na cabeça, subi as escadas que me levariam à abertura da Freeporto.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 16h45
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vou gostando do que leio na antologia, aliás, estou na prosa, mas acho que precisamos tomar muito danoninho ainda antes de virarmos escritores de verdade. veremos.

deixo aqui dois trechos do conto. chama-se "As palavras, as horas; as colheitas, as grinaldas" (já mudou de título no livro Tuas famílias, não deu tempo de ajeitar na antologia).

Hoje, ao contrário de outras coisas, não quero esquecê-lo; gosto mesmo de lembrar dele, mas nunca voltaria a vivê-lo; não me causa angústia, se tu quiser sinceridade, Zaíra, se me tem rancor ou não; não seria ótimo se pudesse ser assim, se caminhássemos o passado da mesma forma que passeamos por um museu? Mas as estátuas insistem em agarrar nossos cabelos

[...]

Esta mulher que amou como nós, Zaíra, passeando entre homens e mulheres, colhendo feixes de trigos e flores. Ela teve o jardim dela e nós duas temos o nosso; está chegando a hora na qual descobriremos os limites deste jardim e o quanto ainda é possível mover-se. Quando isto acontecer... A vida terá muito mais certezas e enfados? Descubro que há um limite em cada caminhada, principalmente se continuamos em linha reta; não há, por outro lado, liberdade possível se só caminharmos em círculos. Por quê? Há sempre um lugar para o qual é preciso ir. Então, se houver um caminhar, que haja uma chegada. Porém errante.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 03h06
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em mais um momento de insônia. tocam umas mp3 do pulp aqui no computador e por isso lembro da época da escola. talvez tenha ficado nostálgico quando conversei com santiago, lá na freeporto, sobre bandas que eu escutava em Campina, na época do Geo.

(amanhã, ou melhor, hoje, é um "dia de luta", como diz minha mãe. vocês nem imaginam! ou melhor, sabem muito bem).

estou aqui lendo a antologia tudo fora escrito ali/tudo aqui fora escrito (título pouco prático, né?). meu lado "crítico" fica com os dedos coçando para escrever uma resenha, mas é ridículo fazer isto se estou publicado nela. por isso, estou torrando a paciência de amigos para ver se eles a debatem e fazem outras antologias complementando-a, afrontando-a, queimando-a, entre outros gerúndios recomendáveis.

quando lembro das pessoas que amanheceram comigo, nestes tantos anos, principalmente nos últimos dez, sabem o que eu lembro? olhos, alguns esverdeados, maquiagens de carnaval, o mar, pombos, silêncio, tatuagens delicadas em peles de mulheres, um abraço bem largo, garrafas de vinho, navios, praças, beijos, uma música dos Beatles e choradeiras redentoras. os rostos queridos surgem na memória com pouco esforço, todos lindos. cada luz e cada bailado da água foi diferente do amanhecer anterior, posso garantir.

esta é uma madrugada na qual há necessidade de libertação.




Escrito por Cristhiano Aguiar às 02h52
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as pessoas que nunca esqueci foram aquelas que amanheceram comigo.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 04h54
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wow.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 04h52
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isto é um sábado no recife, pessoal. quem não está aqui, chegue pra cá.

 

braços abertos até o amanhecer no marco zero. 

 

bonito, um bordado de roxos e cinza.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 04h52
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SUEDE + DOIDERA + AT THE DRIVE IN + PULP

 

\m/



Escrito por Cristhiano Aguiar às 04h51
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Vocês conhecem o blog Verbosujo? Ele é editado por Yugo Taroo e outros novos escritores. O que me chama atenção é que parece haver, no site, uma nova revista literária se formando. Parecendo interessante.

 

Nos últimos posts, vocês podem ver entrevistas com Marcelino Freire e com Artur Rogério, assim como um poema de Jomard Muniz de Brito:

 

http://verbosujo.wordpress.com/



Escrito por Cristhiano Aguiar às 19h21
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Momento de sabedoria prática

"Não comerás coxinhas de bacalhau + catupiry no rei das coxinhas sentido Recife -> João Pessoa".

 

Tenho dito! =P



Escrito por Cristhiano Aguiar às 23h13
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E a Freeporto, hein? Vocês podem saber mais aqui:

 

http://www.cafecolombo.com.br/

 

E vejam o que Marcelino andou escrevendo sobre a festa:

 

http://www.eraodito.blogspot.com/



Escrito por Cristhiano Aguiar às 23h12
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Já faz um bom tempo que escutei esta música pela primeira vez. De quando em quando, lembro dos versos. 

 

Quartos de hotel são iguais
Dias são iguais
Os aviões são iguais
Meninas iguais
Não há muito o que falar sobre o dia
Não há do que reclamar
Tudo caminha
E as horas passam devagar
Num ônibus de linha
Passos no corredor, alguém se aproxima
E uma voz estranha diz: "Bom Dia"

Posso pedir os jornais
Pedir o jantar
Ligar pra tantos ramais
Ninguém pra falar
Sobre o vermelho que abre este dia
Tudo está no lugar em que não devia
O mundo sai pra trabalhar
Enquanto eu abro a água fira
Um estranho no espelho
Eu quase nem me conhecia
E uma voz estranha diz:
"Bom Dia!"



Escrito por Cristhiano Aguiar às 01h08
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escrever também sobre: Féti e Mutwa; uma formiga; ó; palavras apetrechadas de asas; Homero; João!, João!, João!; pesadelos; vidro em pó



Escrito por Cristhiano Aguiar às 01h11
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Esqueci de avisar que amanhã, dia 29 de Outubro, estarei na Gerência Operacional de Literatura e Editoração, às 17h, ministrando o curso Hoje - Ficção Contemporânea em Pernambuco.

Será uma conversa de aproximadamente 90 minutos, no qual serão abordados algumas temas das obras de: Ronaldo Correia de Brito, Fernando Monteiro, Marcelino Freire, Raimundo Carrero.

As inscrições são gratuitas e conferem certificado da Fundação de Cultura Cidade do Recife.

Endereço: Av Rio Branco, 76A.

Telefone de contato: 3232-2898

Aos que estiverem em Recife, espero encontrá-los lá!

O curso é parte da minha dissertação de mestrado e de um projeto de publicação que pretendo realizar no primeiro semestre de 2010.



Escrito por Cristhiano Aguiar às 16h15
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